Região Nordeste. Terra de muito calor, belas praias, sertão e… Lendas. Ter nascido aqui me permitiu ouvir dos mais velhos aquelas histórias que eles contam com toda a empolgação e veracidade, olhando nos nossos olhos, conseguindo com que nossas certezas sobre o surreal sejam colocadas à prova e assustando até os mais corajosos com seus fantasmas, caiporas, mulheres da meia noite. Mas, como uma jovem baiana que aprecia os contos dos mais vividos moradores do interior do estado, percebo que poucas assombrações são mais faladas entre eles como o lobisomem. É difícil não conhecer uma pessoa mais velha aqui, que vive ou já viveu fora da capital que não tenha ao menos uma história para contar do horripilante cachorro.

Há um detalhe que, creio eu, é uma particularidade do lobisomem baiano: ele é viciado em farinha! Por isso, se você é de outro estado do Brasil, não se admire se um dia topar com um baiano contador de “causos” por aí e ele te disser que, certa vez, há muito tempo atrás, quando ele ainda era pequeno e morava no interior com a família, o lobisomem arrombou uma casa de farinha e ficou por lá, lambendo o fogão. Engraçado, não é? XD

Bem, seja como for, hoje vou postar aqui um texto em forma de cordel (perdoem-me se por acaso não ficou um cordel perfeito, certo?) que fala de algo que aconteceu com o dono de uma casa de farinha…

Zé da Farinha e o Lobisomem

Vou contar uma história

Que aconteceu anos atrás

Algo que mudou minha vida

E eu não esqueço jamais

Numa época em que o mundo

Era um pouco diferente

E não era apenas

Moradia de gente

Eu morava bem feliz

No interior da Bahia

Levava uma vida tranquila

Que beleza, que alegria!

Vivia perto dos parentes

E também dos meus amigos

Em uma casinha simples

Mas que era um bom abrigo

O meu nome na verdade

É José dos Santos Medeiros

Mas Zé da Farinha era chamado

Pelos meus bons companheiros

Tinha uma casinha de farinha

Que produzia farinha da boa

E era capaz de agradar

O paladar das pessoas

Vivia muito contente

Cercado de boa gente

Mas nem tudo na minha terra

Era perfeição infelizmente

Pois os antigos contavam

De uma certa assombração

Que na madrugada deixava

Corpos jazendo no chão

Refiro-me ao Lobisomem

Você já deve ter ouvido falar

Suas lendas sempre rezam

Que nas noites de luar

Ele aterroriza sete vilas,

Cancelas e cemitérios

De dia, porém, é um homem

Por isso é um grande mistério!

Apesar de ter nascido

Nas profundezas do sertão

Eu não cria na lenda

Do maldito cachorrão

Muitos me diziam:

“Ele gosta de farinha

E vai nas suas casas

Para lamber o fogão”

Um dos que acreditavam

Era um vizinho meu

Um velho companheiro

Chamado Tonho de Abreu

Que morava com sua mulher

A boa e velha Berenice

E que assim como o marido

Era cheia de crendices

Eles sempre me avisavam:

“Cumpádi tenha cuidado

Pode ser que numa noite

Ele te pegue despreparado

Lá naquela casa de farinha

Onde o amigo as vezes dorme

Este bicho é um perverso

Não é bom brincar com a sorte!”

E eu sempre respondia

Com uma boa gargalhada:

“Vocês podem sossegar

Não dou sopa pro azar!

Se o monstrengo aparecer

Comigo ele vai se danar!”

Mas sabiam que na história

Eu não conseguia acreditar

Ganhei de Tonho de Abreu

Uma baita de uma faca

Não era uma faca qualquer:

Era um facão de prata!

“Se a fera aparecer

E tu estiver sozinho

Com este facão vai dar

Cabo dele rapidinho”

Mesmo achando graça

Naquela patacoada

Agradeci o presente

Pois gostei dele de cara

Os jovens vão dar risada

Mas no interior nordestino

Um facão para cortar o mato

Era coisa necessária

E assim levava a vida

Como sempre a levei

Ir à casa de farinha

Era sempre a minha lei

Sem medo de sexta-feira,

Meia-noite ou lua cheia

E a faca que ganhei

Virou uma companheira!

Certa noite estava eu

Na casa de farinha

A lua cheia brilhava

Pálida, branca e bonita

Quando ouvi um barulho

Um uivo muito perto

Uma coisa medonha!

O choro do inferno!

Lembrei das histórias

Daquelas redondezas

Se eram ladainhas

Já não tinha mais certeza

Ouvi passos fortes

E por fim um barulhão

E a porta da minha casinha

Foi direto para o chão!

Uma coisa medonha

Bicho grande e escuro

Olhos cor de sangue

Rabo longo, corpo cabeludo

Garras afiadas brilhavam

Duas orelhonas em pé

Mandíbulas arreganhavam

Ali estava o assombrado

Que eu nunca levei fé

Era um lobisomem

Bem que tentei gritar

Mas o terror foi tanto

Que nem podia sussurrar

Congelei de medo

Observando o maldito

Cujo rosnado parecia

Caçoar deste aturdido

Tremia como vara verde

Meu fim havia chegado

Não podia me mover

De pavor paralisado

Foi aí que o amaldiçoado

Fez algo que me tirou o transe

E me deu finalmente

De escapar uma chance

Pulou em minha direção

Seu corpo ainda estava no ar

Quando tomei minha decisão

Antes de ele me pegar

Alcancei a peixeira de prata

O presente de Tonho de Abreu

E foi com um golpe da danada

Que o fim do cão cruel se deu

Eu o rasguei ao meio em dois

Como se parte uma maçã

E na hora aconteceu uma coisa

De enlouquecer mente sã

Quando os dois pedaços do cão

Caíram separados no chão

Eles viraram pedaços humanos

Acreditem, não foi engano!

Examinei os pedaços

Daquele ex-lobo perverso

O susto foi tão grande

Que achei que estava alucinado

O morto ali despedaçado

Era um varão conhecido

Que todos chamavam

Pelo nome João Chico

Em vida era magrelo

Esquisito e descorado

E a desconfiança de Tonho

Sempre havia despertado

Mas agora eu sentia

Culpa pelo o ocorrido

Pois ele podia ser bicho

Mas de dia era o Chico!

O desespero martelava

Na minha cabeça pirada

Se o corpo era de homem

Ninguém acreditaria

Que antes era lobisomem

Resolvi esconder o corpo

Saí andando porta a fora

Até achar um lugar pra cova

Não sabia que era observado

Enquanto escondia meu pecado

Enterrei o ex-maldito

E fui embora todo aflito

Lamentava ter dado fim

Na vida daquele senhor

Mesmo ele quase me matando

Com ainda mais horror

De manhã, batidas na porta

Tonho de Abreu ali estava

Para me dar a notícia

Que a polícia me procurava

Eu estava sendo acusado de matar

João Chico a facadas

E meu amigo implora então:

– Diz que isso é engano, meu irmão!

Chorando contei para Abreu

Tudo o que se assucedeu

Ele ficou abismado e me contou:

– Já te digo quem te delatou:

Zé do Açude na noite anterior

Ouviu barulho e foi na tua casa

Mas só viu tu saindo pelos fundos

Carregando o teu defunto

Apurrinhado com tanta sordidez

Quis surrar o Zé do Açude

Mas o alerta de Tonho

Me fez ser mais ético:

– Se tu não der o fora

Vai acabar no xadrez

O delegado é cético:

Só acredita no que vê!

Abreu me arrastou pela roça

Meu levou pra longe dali

Foi no meio do mato

Que me escondi até a hora

De fugir pra São Paulo

Onde seria escorraçado

Pisado e humilhado

Mas jamais encontrado

Eu ainda era procurado

Quando Tonho e Berenice

Num pau de arara me colocavam

E eu então eu me despedi

No meu peito a dor cortante

De quem não queria partir

Sofria por deixar o sertão

Por conta daquela maldição

O casal então me dizia

Que minha falta sentiria

Olhos vermelhos de choro

Desejavam que eu voltasse

E de forma bem sofrida

Completaram a despedida

Pedindo a Deus que guiasse

Os passos da minha vida

Passado muitos anos

Que tudo aconteceu

Ainda lembro com carinho

De Berenice e Abreu

Rezo pra que estejam em paz

Nunca mais voltei à Bahia

Temendo ser encontrado

E ver o sol nascer quadrado

Aqui em São Paulo

Construí minha família

Com minha esposa Marina

Uma prenda mais que linda

Tivemos três belos filhos

Dois varões e uma mocinha

Falta da minha terra tenho

Mas não me sinto em desalento

Hoje o mundo é outro

As assombrações também

Estupro e esquartejamento

Assustam até o além

Eu não queria ter nas costas

O passado de assassino

Mas do jeito que as coisas estão

Preferia enfrentar outro João Chico!

Agradeço de coração a um senhor, conhecido meu, por ter me contado o “causo” que inspirou este cordel.

Espero que tenham gostado. Boa noite! E para finalizar, uma musiquinha: Mistérios da Meia-Noite – Zé Ramalho

Isabella

Anúncios

2 comentários sobre “Um cordel de lobisomem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s