A gente pensa nisso o tempo todo. É semana que vem. É daqui a dois dias. É amanhã.

A gente pensa em mil e uma coisas. Se ganhar. Se não ganhar.  Não pode empatar. Pode empatar. Não tem vantagem. Tem vantagem. Se o esquema for armado assim. Se o esquema for montado assado. Se, ao invés de colocar Fulano, tirar Beltrano do banco de reservas, teremos grandes oportunidades. Não. Acho melhor deixar do jeito que tá. Jogaram bem até agora. Em time que está ganhando não se mexe.

Aí chega o dia. Já acordamos pensando no assunto. É hoje! Tomara que dê tudo certo! Disponibilizaram mais ingressos. Vamos acampar na fila para comprar? O meu já está garantido. Não vou ao estádio. Sou “sofanático”. Torço em casa mesmo!

Já treinou a música? O bandeirão tá pronto, não tá? Que horas vamos sair de casa? Mãe! Você viu minha camisa? Aquele modelo tradicional? Vamos soltar sinalizadores quando o ônibus da delegação chegar! Se pegarmos o avião pela manhã, teremos tempo de descansar um pouco antes de irmos ao estádio. Melhor comprarmos essa passagem logo, hen? Vou assistir pela TV fechada. Vou assistir no restaurante. Vou assistir na casa da minha namorada. Eu, ela e o sogrão! Minha irmã vai me levar ao estádio pela primeira vez. Vai ser 3X0! Não, vai ser de goleada! Tenho certeza!

Então chega a hora. A gente se derrete com nossos mascotes, tão meigos, entrando em campo e fazendo gracinhas para o pessoal. A arbitragem se prepara. E os homens uniformizados, calçando chuteiras e camisas coloridas entram no gramado. Mas, antes disso, já estávamos fazendo festa. Tumultuando a rua. Soltando fogos. Comprando faixas. Gritos. Palmas. Palavras de ordem. Canções. Gritos de guerra.

Ao som do apito, nosso sufoco começa. O ataque tá bom. O ataque tá fraco.  Boa posse de bola. Acorda, Ciclano! Melhora a marcação. Epa! Quase saiu um gol contra! Vemos uma gafe cometida no gramado. Mãos sobre a cabeça e deixamos escapar aquela exclamação de dor e lamento: Uuuh!!!

Passamos mensagens a torto e a direito. Está assistindo? Eles estão indo bem, né? Acabei de te ver na arquibancada! Tô com medo! Tô nervosa! Já foi! Hoje, a noite é toda nossa!

As bandeiras se agitam. O coração também. As mãos tremem. Os dentes mordem o que encontram pela frente: unhas, dedos, tecidos de bandeiras, lábio, almofadas, a própria camisa, grades de proteção. E a gente berra. A gente xinga. A gente reclama. A gente pede a presença da CBF e da FIFA. Juiz ladrão! Tá prejudicando a partida! Isso não foi falta! Nesse instante cometeram uma falta em cima de X e ninguém fez nada! Não é justo! Como é que coloca um camarada destes para apitar um jogo deste nível? Não estava impedido!

O que mais a gente sabe, nessas horas, aliás, é ser técnico e juiz. E bem melhores do que aqueles que estão lá, na beira do gramando e percorrendo o gramado.

Mas o sofrimento vale a pena. Vale a pena quando o objeto redondo encontra o seu destino. E até que ela conclua seu percurso, as respirações são suspensas. Os olhos se arregalam. Os sorrisos se desenham. A alegria toma conto do corpo. E parte do estádio e da cidade irrompe em um sonoro e prazeroso:

-GOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Usamos mais uma vez o celular. Comemoramos com quem tá perto. Com quem tá longe. São abraços. Beijos. Ninguém se preocupa em prejudicar as cordas vocais. Fogos. Muitos fogos. Toca o hino! Aumenta o som! Zoa o rival! Não, não zoa. Deixa para o final. A cantoria fica ainda mais forte. Os batuques. A confiança.

Primeiro tempo. Segundo tempo. O tempo voa para quem perde. Se arrasta para quem ganha. As coisas estão dando certo. A gente faz o que pode para que continuem assim. E, se não estiverem dando certo, a gente também tenta fazer com que dê. Tem quem reze. Tem quem cante ainda mais alto para energizar. Tem quem cruze os dedos. Quem está em casa senta e começa a agitar os pés. Não aguenta o nervoso. Sai da frente da TV. Tem gente que aguenta e fica. Acréscimos. Malditos acréscimos. Ou benditos acréscimos. Mas vamos olhar pelo olho da vitória hoje.

Trinta minutos. A gente quer apressar o cronômetro. Trinta e cinco. Que frio horrível na barriga! O adversário insiste, tenta, aperta. Uns tapam os olhos. Outros veem. A aflição é a mesma, de qualquer forma. A gente percebe na hora que torcer muitas vezes significa sofrer. Dá uma catimbada aí pra segurar! Termina! Por favor, termina! Apita, juiz! Apita!

O som do apito. O som do alívio. A guerra acabou. A agonia acabou. E faltam palavras para descrever o que acontece depois daqui. Principalmente se for dia de ganhar caneco. Aêêêêêêê!!!!!! Deu certo! Deu tudo certo! A taça é nossa! O título é nosso! Vem cá! Dá um abraço! Não disse que ia dar tudo certo? Fogos! Mais fogos! É campeão! Bicampeão! Tricampeão! Hexacampeão!

Não há mais fôlego. Mas a gente arranja até do impossível. Para comemorar. Para gritar. Para parabenizar. E a gente se gaba. A gente acha que não há time melhor que o da gente. Barcelona? O que é isso, mesmo? E o que importa? Acabou. E está tudo bem pra gente.

Texto louco. Desconexo. Quem escreveu não quis dizer coisa com coisa. É. É verdade. Está louco mesmo. E talvez você pense isso e só. Mas, se você admira um escudo, um hino, umas cores, uma história, tenho certeza que se encontrou no meio desta loucura toda.

Não se explica o gosto por um time de futebol. Ela só existe. E fim. E não importa se ele não está tão bom. Um dia ele melhora. Quem é torcedor, sente.

Em 24 de maio de 2017, após um longo regime, o Esporte Clube Bahia conquistou mais um título no campeonato do Nordeste.

Em maio de 2012  o clube também quebrou um longo regime, quando ergueu a taça do campeonato estadual.

Em 2010 voltou a fazer parte da elite do futebol após um, também, grande período.

E ele vai quebrar mais outro longo período. O que mais se espera. O maior de todos. Eu sinto.

torcida_bahia_site
Imagem de radio web Juazeiro
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