Um dia desses, eu e uma colega estávamos conversando sobre alguma coisa que não me lembro. A única coisa de que me recordo, na verdade, foi de ter falado para ela que, se eu soubesse desenhar, ilustraria a personificação de cada estação do ano. Ela riu. Tenho que me acostumar com o fato de que minhas ideias mirabolantes podem causar espanto. Mas me digam… Por que essa surpresa toda? Tanta gente que é craque em desenho faz trabalhos tão legais… Personificam, parodiam, criam. E todo mundo admiro. Vai ver porque coisas assim são mais admiráveis na prática do que na teoria.

Mas, enquanto a garota com quem conversava soltava um muxoxo e ria, eu dizia no meu íntimo: “Bom… Não sei desenhar. Mas posso desenhar textos! E daí, nasceu um poema, que não gostei de escrever logo nos primeiros versos. Mas não porque estivesse ruim. É que eu percebi que estaria melhor como uma narrativa. Parece que estou saindo do meu momento poeta, rs. Organizei-o dessa maneira e… O resultado está logo abaixo! Nesse texto, eu falo sobre a chegada e a saída das estações do ano, na minha visão. Confiram, e por favor, deixem seus comentários, pois alegrão muito meu coração.

A Crônica das Estações

Quando o ar gelado corta os rostos, chicoteia os corpos e faz os corações sentirem necessidade de se aquecerem, nós sabemos. Ele chegou.

Inverno

Aquele senhor branco que anuncia a sua chegada ora com um silvo, ora com um uivo. Ele vem mansamente, congelando as árvores, congelando o vento, congelando as ruas, jogando cinza em tudo. E fazendo com que as pessoas procurem o quente do vermelho no crepitar charmoso do fogo das lareiras, no estiloso casaco de algodão. Fazendo com que elas procurem aconchego sob as luzes amareladas das salas de estar. Fazendo-as tentar colorir os dias com guarda-chuvas multicores.

E o senhor avança. Instala-se tirano. Passa os dias regando a terra com pingos gélidos, molhando estradas, casas e bancos de praças. Impedindo que as velhinhas que frequentam os parques se reúnam para suas conversas. Atrapalhando a partida de futebol do garotinho. Dificultando a vida de quem segue o ritmo normal da vida.

Mas ele não é tão mau assim. Une ainda mais os casais embaixo de seus cobertores. Ajuda o rapaz que quer conquistar a sua linda colega de faculdade, afinal, agora ele pode mostrar sua gentileza ao lhe oferecer um agasalho ou um espaço embaixo do seu guarda-chuva. Torna o chocolate e a bebida quente ainda mais gostosos. Faz aquela sessão de cinema em casa acontecer.

E então todos percebem que não é difícil se acostumar com ele. Que este velho carrancudo também tem seu lado bom. Compreendemos isso ao nos sustentarmos sobre a elegância das botas, envolvidos em grossos casacos, nos charmes das calças jeans. E quando já estamos conseguindo ver beleza nos dias cinzentos, quando conseguimos outros lazeres que não envolvam o ar livre, sentimos um calor. Não muito forte, mas ainda é um calor. Um calor que colore o mundo com suavidade, que traz um clima apaixonado e lança um perfume no ar. É, a estadia do idoso está terminando, e uma bela moça toma o seu lugar.

primavera

Ela chega leve, espalhando jovialidade pelos cantos, fazendo com que as pesadas roupas de frio sejam substituídas por roupas mais leves. E todos sorriem com o poder mágico de um sol que ensaia aparecer.  Suas cores rosa, lilás, laranja, amarelo são carregadas nas pétalas das flores que desabrocham, nas asas das borboletas, no assoviar dos pássaros livres. E agora as velhinhas podem voltar a conversar no parque. O garotinho tira a sua bola do canto e chama os amigos para jogar. Já não há a possibilidade constante de chegar ao trabalho encharcado.

E o casal que outrora se unia ainda mais embaixo do cobertor para se aquecer agora se une num abraço amoroso, num agradecimento da esposa ao seu marido, pelo lindo ramalhete de rosas vermelhas que ele lhe trouxera. O rapaz que fora gentil com a colega de faculdade atualmente a chama de namorada e arranca do jardim da praça uma singela flor para presentear a sua garota. O tempo já pede um refrigerante e atividades ao ar livre.

E a jovem recém-chegada, em seu vestido de estampa floral continua a presentear a todos com seu frescor, brincando, bailando. E o melhor de tudo: ela cria expectativa para o próximo visitante. Ela é o seu arauto. Ela representa, para muitos, o atalho de uma visita que todos há muito esperam.

verao

Então ela vai embora. Leve e feliz do mesmo jeito que chegou. Cede o seu quarto para um belo rapaz. Um rapaz forte, musculoso, bronzeado. Um rapaz por quem ela nutre uma paixão (ele também nutre uma paixão por ela). Um rapaz que até se parece em muito com ela, só que ele é ainda mais ensolarado, ainda mais intenso, ainda mais maroto. Ele agita o ano com ondas, bronze, areia, sal, água, folia. Ele traz uma vontade incrível de viver. E com um sorriso maroto nos lábios, ele brinca. Brinca com os cabelos das amigas que jogam frescobol na beira do mar. Olha satisfeito para os jovens que se paqueram na barraquinha de água de coco. Sente-se inigualavelmente satisfeito ao ver a dupla de amigos abraçando-se fortemente no aeroporto, matando as saudades após meses separados. Ele aprecia o cheiro da brisa marítima nos cabelos e na pele bronzeada da moça.

O vermelho, amarelo, laranja de sua aquarela são tão vibrantes quanto o azul de seu céu. E ele segue brincando, com aquela irreverência costumeira dos garotos que estão na casa dos seus vinte anos. E quando ele está para ir embora, tanta gente lamenta, tanta gente reclama! Ele mesmo não gostaria de ir. Lamenta, mas vai sorridente, deixando espaço para outro senhor.

Colorful autumn

Este não é tão idoso quanto o primeiro. Na verdade, é um charmoso homem de meia-idade que, ao chegar, invade a terra com tons terrosos, além dos tons das folhas secas que ele derruba no chão, despindo as árvores. O ar começa a esfriar novamente, mas o tempo não fecha o suficiente para impedir encontro em praças e brincadeiras no parque. Todavia, ele começa a encurtar os dias, a retardar os fracos raios solares. Ele é o ponto de equilíbrio entre o quente e o frio. Ele é o divisor de águas entre a euforia e a calma. Ele vai envolvendo pouco a pouco as pessoas em camisas de manga, calças e meias porque ele sabe: aquele senhor cinzento não demorará a chegar… E quando menos se espera, o homem de meia-idade se despede tranquilamente, deixando o senhor pintar a terra de branco novamente…

É este o ciclo eterno. O belo ciclo eterno. E se um dia ele deixar de existir, não existirá mais Terra.

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